
Por Sarah Rasmussen, Managing Consultant – Talent Assessment Lead
Muitas vezes, minha compreensão sobre liderança eficaz surge de caminhos inesperados. Recentemente, isso aconteceu ao assistir com meu filho ao documentário “Inside the Mind of a Dog”, onde descobri o conceito de “survival of the friendliest”, a sobrevivência dos mais amigáveis. Durante décadas, modelos de liderança se apoiaram mais em metáforas darwinianas: dominância e sobrevivência do mais forte. No entanto, a ideia de sobrevivência dos mais amigáveis, em termos evolutivos, sugere que o sucesso depende mais de colaboração e relacionamentos sólidos do que de pura competição. Isso me levou a refletir: essas não são exatamente algumas das características que vemos em líderes altamente eficazes, com forte inteligência emocional (IE)? E se certos animais tiverem entendido isso antes de nós? E se prosperar (tanto na evolução quanto na liderança) não estiver relacionado a ser o mais poderoso ou o mais inteligente, mas sim o mais amigável?
Ao pesquisar sobre o tema, encontrei exemplos convincentes de como essa lógica já se estabeleceu há milhares de anos:
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– Lobos perceberam que, ao se aproximarem dos humanos, tinham mais chances de se beneficiar dos alimentos descartados por eles. O resultado dessa aproximação é evidente: a evolução dos lobos até os cães domesticados que hoje consideramos nossos melhores amigos.
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– Pinguins utilizam a técnica do “pinguim do meio”, formando agrupamentos onde se revezam para ficar no centro e compartilhar o calor, sobrevivendo às tempestades brutais da Antártida.
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– Abelhas e flores dependem mutuamente umas das outras: as abelhas obtêm alimento, enquanto as flores dependem da polinização para se reproduzirem. Essa relação mutuamente benéfica demonstra como a “amizade” — aqui entendida como troca de recursos — é essencial para a sobrevivência de ambas as espécies.
Deixando cães, lobos, pinguins e abelhas de lado, podemos aprender muito com a teoria da sobrevivência dos mais amigáveis e sua conexão com a inteligência emocional no ambiente de trabalho e o sucesso na liderança.
A sobrevivência dos mais amigáveis no ambiente de trabalho
Ao refletirmos sobre essa teoria aplicada à liderança, o conceito destaca a importância de criar um ambiente de trabalho colaborativo, acolhedor e inclusivo. Líderes que priorizam empatia, comunicação aberta e trabalho em equipe constroem uma cultura onde as pessoas se sentem valorizadas e motivadas , o que leva a um desempenho organizacional superior. Em um mundo complexo, interconectado e incerto, essa teoria oferece uma lente poderosa para repensarmos a liderança. Indo além, se analisarmos traços de liderança sob a perspectiva dos cães, podemos aprender muito, por mais curioso que isso possa parecer. Cães são conhecidos por serem leais, atentos às emoções humanas, protetores de sua “matilha” e portadores de energia positiva, todas características altamente desejáveis em líderes seniores.
Recentemente, testemunhei isso na prática. Dave e Tom são dois líderes seniores em uma empresa global de private equity. Dave é conhecido por ser direto, exigente e, às vezes, francamente intimidante. Já Tom é amigável e acessível, investindo tempo para construir relacionamentos genuínos. Após conduzir sessões de coaching com ambos, ficou evidente como suas abordagens diferentes geravam resultados distintos. Dave relatava que as pessoas nem sempre respondiam aos seus pedidos de apoio. Inclusive, chegou a pedir que Tom solicitasse ajuda em seu nome, já que suas próprias solicitações tinham pouca adesão.
Esse é um exemplo claro de como o estilo mais amigável de Tom gerava mais engajamento da equipe. Seus colaboradores estavam dispostos a ir além por ele, devido à conexão construída. Já Dave enfrentava resistência, pois tinha histórico de comportamento impessoal e pouco acolhedor.
Tom, o mais amigável, demonstrava não apenas sobreviver, mas prosperar, enquanto Dave enfrentava dificuldades.
3 benefícios da sobrevivência dos mais amigáveis no trabalho
Ao observar como o nível de “amizade” de um líder impacta diretamente sua equipe, comecei a explorar outras vantagens desse estilo de liderança. Descobri que são muitas.
1. Aumenta a segurança psicológica
Segurança psicológica é a crença compartilhada de que é seguro assumir riscos interpessoais, como expressar ideias ou admitir erros, sem medo de represálias ou constrangimento. Ambientes colaborativos e abertos incentivam as pessoas a compartilhar ideias inovadoras, assumir riscos e experimentar, estimulando inovação e resolução criativa de problemas. Líderes que utilizam sua inteligência emocional para cultivar esse sentimento de segurança conseguem liberar o potencial máximo de suas equipes.
2. Fortalece o bem-estar
O sentimento de pertencimento é essencial para o bem-estar. Estudos sobre felicidade mostram que conexão e socialização aumentam a produtividade e funcionam como amortecedores contra o estresse. Interações sociais estimulam a liberação de ocitocina e dopamina, melhorando humor e motivação. Líderes emocionalmente inteligentes criam ambientes onde conexão e bem-estar florescem e isso impacta diretamente a performance.
3. Ajuda a lidar com um mundo do trabalho em constante mudança
Vivemos em um cenário de instabilidade econômica e disrupção tecnológica. Isso aumenta o risco de burnout e queda de produtividade. Líderes que mantêm o elemento humano na liderança — ouvindo, demonstrando cuidado e construindo confiança — fortalecem a resiliência da equipe e sua capacidade de lidar com ambiguidade. Em tempos incertos, confiança é tudo. Líderes transparentes, consistentes e empáticos conquistam comprometimento e criatividade.
Líder amigável não é líder fraco
Um equívoco comum sobre essa abordagem é considerá-la “suave demais”. Ao compartilhar essa reflexão com Dave, ele comentou que não queria ser visto como alguém fraco. No entanto, ser amigável não significa ceder a todas as demandas. Trata-se de equilibrar compaixão com responsabilidade.
Criar um ambiente onde as pessoas são ouvidas e engajadas gera um clima coeso, onde os colaboradores se sentem valorizados e trabalham com mais dedicação para alcançar metas organizacionais. Essa mudança de foco é bem-vinda. Em vez de uma lógica de competição implacável (“matar ou morrer”) o sucesso passa a ser construído por meio de coesão, compreensão e interações eficazes.
Teoria clássica, novo potencial
Alguns líderes podem enxergar essa abordagem como algo “leve demais”. Porém, a teoria da sobrevivência dos mais amigáveis tem base evolutiva sólida e é respaldada por evidências práticas em organizações. Ela ilustra claramente que liderança eficaz e inteligência emocional caminham juntas.
A boa notícia é que inteligência emocional pode ser desenvolvida. Líderes que reconhecem sua importância podem aprimorá-la ativamente, sendo mais “cão” para se tornarem “top dog”, por assim dizer. No fim das contas, a abordagem mais amigável, baseada em confiança e apoio mútuo, pode ser um dos principais motores do sucesso sustentável na liderança.
