Por Laura-Kate Ruttle, Consultora Principal
Como acontece com qualquer mudança organizacional, avançar para soluções de contratação baseada em competências também traz seus desafios. Como diz o ditado, normalmente não há ganhos sem (ao menos um pouco de!) dor. Para colher os benefícios potenciais dessa mudança, será preciso superar alguns obstáculos. Conhecer esses possíveis desafios com antecedência ajuda a se preparar, planejar e reduzir o impacto que eles podem ter sobre o processo.
Não prometo que esta seja uma lista exaustiva, mas abaixo estão quatro dos desafios mais comuns que observamos ao trabalhar com nossos clientes na implementação de uma abordagem de contratação baseada em competências. Mais importante ainda: também incluímos orientações sobre como superá-los.
Desafios na implementação de soluções de contratação baseada em competências
1. Mudar mentalidades e conquistar o engajamento interno
Algumas pessoas são naturalmente mais abertas à mudança do que outras. Afinal, “abertura” é um dos cinco grandes traços de personalidade (Big Five). Ao decidir implementar iniciativas de contratação baseada em competências, é quase certo que você terá apoiadores mas também encontrará resistências.
O nível de oposição a essa mudança costuma depender do ponto de partida da organização e do que gestores de contratação e equipes de recrutamento estão acostumados a fazer. Se a empresa já utiliza avaliações padronizadas em processos baseados em competências, a transição para uma abordagem baseada em habilidades pode parecer menos disruptiva. No entanto, se o processo atual depende fortemente de currículos e entrevistas não estruturadas, a mudança tende a ser mais significativa e desafiadora. Pesquisas mostram que muitos gestores acreditam que o “feeling” é um forte preditor de sucesso, o que dificulta a migração dessa intuição para avaliações psicométricas padronizadas e objetivas.
Para superar essas objeções, recomendo as seguintes ações:
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– Envolver as equipes internas desde o início. Engajar gestores de contratação o quanto antes e da forma mais ampla possível ajuda muito. Desde a análise de cargos até a definição de frameworks e relatórios, garanta que eles participem e que seus feedbacks sejam valorizados.
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– Compartilhar evidências. Dados falam alto. Demonstre a credibilidade psicométrica e os fundamentos científicos da abordagem, além de apresentar cases de sucesso e benefícios operacionais.
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– Conectar a mudança a objetivos pessoais e organizacionais. Seja para reduzir o tempo gasto na triagem manual de candidatos ou para melhorar indicadores como diversidade no ambiente de trabalho, mostre como a mudança apoia esses objetivos.
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– Realizar um piloto e contar a história. Um projeto-piloto ajuda a construir provas concretas de sucesso no contexto da sua organização. Compartilhar os resultados de forma envolvente torna a iniciativa ainda mais persuasiva para os stakeholders.
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– Capacitar e reconhecer as equipes. Garanta que os gestores tenham as ferramentas e treinamentos necessários. Reconheça os primeiros adotantes e incentive-os a atuar como embaixadores e mentores do processo.
2. Mitigar riscos
Existe bastante conteúdo sobre os benefícios da contratação baseada em competências, mas menos sobre os riscos de implementá-la de forma inadequada. Ainda assim, é importante destacar que problemas podem surgir se o processo não for bem desenhado, bem executado e continuamente revisado. Para evitar isso, recomendo uma abordagem estruturada, como o uso de um modelo em seis etapas que vá do planejamento à prática.
Antes da implementação, reflita sobre as seguintes perguntas:
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– Temos uma definição clara de competências e uma taxonomia que realmente represente nossa organização, cargos e cultura?
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– Entendemos como diferentes competências se relacionam com nossos objetivos organizacionais e funções específicas?
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– Temos uma visão sólida das forças e lacunas de competências na força de trabalho atual, permitindo priorizar contratações e decisões de mobilidade interna?
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– Contamos com métodos confiáveis, válidos e justos para medir competências relevantes de forma objetiva ao longo do processo seletivo?
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– Estamos coletando dados acessíveis para avaliar o impacto dessa mudança?
Se você consegue responder “sim” com confiança a essas perguntas, está em uma posição muito mais favorável para evitar problemas comuns.
3. Priorizar os tipos certos de competências
Um risco real é restringir demais a definição de competências. Isso pode levar à exclusão de aspectos que continuam sendo preditores importantes, válidos e justos de sucesso organizacional ou em cargos específicos. Para evitar isso, é útil pensar em três pilares fundamentais:
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– Competências transferíveis: relevantes para diferentes cargos e níveis, tendem a ser mais estáveis ao longo do tempo e menos impactadas por mudanças tecnológicas ou do setor. Geralmente são influenciadas por características individuais (personalidade, capacidade, motivação) e experiências de vida ou trabalho.
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– Competências específicas do cargo: habilidades técnicas e especializadas, diretamente relacionadas à execução das tarefas funcionais, normalmente adquiridas por meio de treinamentos específicos.
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– Fundamentos das competências: características individuais que influenciam a demonstração consistente das competências ao longo do tempo. Por exemplo, alguém pode demonstrar grande atenção aos detalhes em uma avaliação, mas se sua preferência natural for atuar em um nível mais estratégico, pode ter dificuldades em funções que exigem foco contínuo em precisão. Esses fundamentos conectam proficiência e desempenho consistente, além de indicar o potencial de aquisição de novas competências.
Além do que medir, o momento da avaliação também importa. Fundamentos de competências costumam ser avaliados no início do processo, por meio de avaliações psicométricas online, especialmente em recrutamentos de alto volume.
4. Medir a eficácia
Por fim, é hora de coletar dados, um passo fundamental. Sem isso, você estará apenas torcendo para que tudo dê certo. Se houve investimento no desenho e na implementação do processo, é essencial dedicar o mesmo esforço ao acompanhamento dos resultados.
Comece com clareza: quais resultados você espera alcançar e quais são mais relevantes? Considere os objetivos organizacionais, os desafios atuais e os indicadores que melhor demonstrarão o sucesso da iniciativa. Garanta também que exista uma linha de base para comparação. Por exemplo, não faz sentido divulgar o novo tempo de contratação sem compará-lo ao processo anterior.
Mesmo após alcançar melhorias significativas, não interrompa o monitoramento. Os dados podem orientar ajustes contínuos e garantir que a abordagem permaneça relevante à medida que tecnologias evoluem e as demandas do negócio mudam.
Superar os desafios da contratação baseada em competências é possível
Migrar para soluções de contratação baseada em competências não precisa ser uma tarefa monumental. Sempre haverá desafios, engajar stakeholders, gerenciar riscos, focar nas competências certas e medir resultados —, mas nenhum deles é intransponível. Quando implementada com uma abordagem clara e estruturada, essa mudança deixa de parecer uma ruptura e passa a ser uma evolução natural rumo a processos de contratação mais inteligentes, justos e eficazes.
