Iniciando a carreira na era da IA: as habilidades humanas que fazem a diferença

Por Ali Shalfrooshan, Diretor de Estratégia Científica da Talogy

 

A era da inteligência artificial está chegando em uma sucessão de ondas. Cada avanço traz modelos mais capazes, novas aplicações e diferentes formas de integrar a tecnologia ao trabalho cotidiano. Cada um deles também gera novas previsões sobre o que a IA significará para os empregos e para a sociedade.

Algumas dessas transformações irão remodelar profundamente setores inteiros. Outras poderão perder força sem produzir o impacto inicialmente previsto. Ainda não sabemos exatamente até onde essas mudanças chegarão, mas seus efeitos já estão se espalhando por praticamente todas as formas de trabalho.

As mudanças tecnológicas sempre criaram, transformaram e eliminaram profissões. Elas modificaram as tarefas realizadas pelas pessoas, os conhecimentos valorizados pelos empregadores e as áreas em que a contribuição humana faz mais diferença. A IA representa a onda mais recente e, possivelmente, a mais significativa de nossas vidas.

O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das habilidades atualmente utilizadas pelos trabalhadores serão transformadas ou se tornarão obsoletas até 2030. A questão, portanto, não é apenas quais empregos a IA criará ou substituirá, mas quais capacidades humanas serão necessárias para que as pessoas possam contribuir, crescer e, futuramente, liderar à medida que as fronteiras entre a contribuição humana e a tecnológica são redefinidas.

O primeiro degrau da carreira está mudando

Evidências recentes sugerem que os profissionais em início de carreira podem estar particularmente expostos às transformações impulsionadas pela IA.

Uma pesquisa do Digital Economy Lab, da Universidade Stanford identificou que o emprego entre jovens de 22 a 25 anos caiu 6% entre o final de 2022 e setembro de 2025 em ocupações altamente expostas à IA nos Estados Unidos. No mesmo período, o emprego entre trabalhadores mais experientes nessas mesmas ocupações cresceu entre 6% e 9%.

Esses dados refletem a realidade de um mercado de trabalho específico e não comprovam que a IA esteja eliminando empregos de entrada de maneira generalizada. Ainda assim, evidenciam um desafio importante.

A IA está cada vez mais capacitada para executar atividades que tradicionalmente fazem parte das funções de início de carreira, como pesquisar informações, analisar dados, preparar primeiras versões de documentos e criar apresentações.

Essas tarefas também desempenham um papel importante no desenvolvimento do discernimento, da confiança e das competências profissionais por meio da experiência.

Quando a tecnologia assume uma parcela maior desse trabalho, as pessoas podem se tornar produtivas mais rapidamente. No entanto, também podem ter menos oportunidades de lidar com ambiguidades, resolver problemas desconhecidos e aprender com os próprios erros.

Ao buscar eficiência no presente, as organizações podem, inadvertidamente, criar lacunas de competências que se manifestarão mais adiante na trajetória profissional.

Por isso, oferecer experiências profissionais iniciais significativas é essencial não apenas para atender às necessidades imediatas da força de trabalho, mas também para manter um pipeline saudável de futuras lideranças.

Se as experiências formativas estão desaparecendo das funções de entrada, as organizações precisam encontrar maneiras mais intencionais de desenvolver as capacidades humanas que essas vivências anteriormente ajudavam a construir.

Como apoiar profissionais em início de carreira na era da IA

À medida que a inteligência artificial assume mais atividades rotineiras, o sucesso dos profissionais em início de carreira dependerá cada vez mais daquilo que conseguem fazer além da tecnologia.

As pesquisas da Talogy identificaram oito habilidades transferíveis que ajudam as pessoas a contribuir no presente, adaptar-se às mudanças no trabalho e preparar-se para assumir responsabilidades maiores:

Vamos analisar cada uma dessas habilidades mais detalhadamente e entender como elas impactam os profissionais em início de carreira na era da IA.

Capacidade de resposta: lidar com as mudanças

A capacidade de resposta envolve abertura e agilidade para adotar tecnologias, aprender continuamente e adaptar-se à evolução do trabalho.

A IA pode oferecer acesso instantâneo à informação, mas ter acesso à informação não é o mesmo que aprender.

A vantagem estará com aqueles que experimentam, refletem e continuam ampliando suas capacidades.

Discernimento: decidir o que realmente importa

O discernimento é a capacidade de interpretar informações, questionar pressupostos e gerar ideias que criem valor.

A IA consegue gerar ideias e respostas convincentes em uma velocidade extraordinária.

O discernimento humano é o que determina quais perguntas merecem ser feitas, quais respostas são confiáveis e quais possibilidades realmente valem a pena explorar.

Sustentabilidade: crescer em meio às incertezas

A sustentabilidade, nesse contexto, representa a capacidade de ajustar-se, recuperar-se e manter o progresso à medida que as circunstâncias mudam.

Profissionais em início de carreira podem ingressar em funções que se transformam enquanto eles ainda estão aprendendo a exercê-las.

A adaptabilidade os ajuda a encontrar novos caminhos, enquanto a resiliência oferece o impulso necessário para continuar avançando.

Efetividade: transformar potencial em progresso

A efetividade é a capacidade de comunicar-se e colaborar para que ideias e esforços se convertam em resultados significativos.

A IA pode ampliar a produtividade individual, mas o progresso ainda depende de pessoas capazes de explicar seu raciocínio, construir confiança e trabalhar de maneira eficaz com os outros.

Construindo o primeiro degrau

O conhecimento técnico e a fluência em IA continuarão sendo importantes, mas as ferramentas seguirão evoluindo.

As capacidades humanas oferecem a base que permite às pessoas acompanhar essas transformações.

As organizações não podem deixar o desenvolvimento dessas habilidades ao acaso. Elas precisam criar oportunidades para que profissionais em início de carreira possam questionar recomendações geradas por IA, resolver problemas desconhecidos, colaborar com outras pessoas e aprender com feedbacks.

O primeiro degrau da carreira pode estar mudando de formato, mas as organizações continuam tendo a responsabilidade de construí-lo.

Desenvolver as capacidades que permitem às pessoas avançar profissionalmente ajudará os talentos em início de carreira a contribuir ao lado da IA hoje e a se tornar os líderes dos quais as organizações dependerão amanhã.